sábado, 21 de novembro de 2015

Amanha è Domingo


Amanha é domingo.

Não chove e sente-se a aragem fresca, não tenho televisão no quarto nem rádio, talvez por isso olho em busca de um não sei o quê, um espelho, uma memória minha, um agasalho intimo. 

Os meus braços soltam-se e agarram o vazio das palavras que ficam por dizer quando partes ou eu regresso. 

Tapo os olhos de mãos postas, recordo as tuas ruas, os teus passos certos com os meus,  adolescentes. 

Não vejo o teu rosto. Com saudade, tento olhar o sol pela fresta semi-aberta da janela, a mesma janela por onde tantas vezes olhamos o anoitecer. 

É sempre Domingo entre seis dias.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Marilu & Diego Falé



Marilu é uma jovem espanhola de Villa Nueva del Fresno, o seu pai, negociante de cavalos é dono de uma herdade abastada de onde se avista Monsaraz.

A bela jovencita mistura-se com a primavera raiana e num acordo de cavalheiros passa a fronteira para casar com Diego Falé, um rapaz que mal conhece ou nada sabe do futuro marido.

Em Vidigueira do Rio numa quinta alugada para o efeito, Diego Falé e Marilu fazem juras de união e prometem amar-se para a vida, jorra o vinho e a música alegre para as centenas de convidados até a noite se fazer dia, os dois jovens partem para a lua-de-mel e para se conhecerem.

As histórias começam sempre assim.

Passados os primeiros tempos em Vidigueira do Rio o casal parte para Villa Nueva del Fresno, regressando um mês depois.

Os dias nascem e Marilu olhando à sua volta parece colocar em causa a sua presença numa terra que mal conhecia, gosta do companheiro, mas as saudades da sua terra, da sua casa e da família fazem-lhe um sorriso tristonho e decide falar com ele.

Diego Falé ouve com atenção a companheira, ela pormenoriza o anseio de voltar para o outro lado da fronteira, argumenta com melhores condições de vida e afirma estar decidida a regressar a Villa Nueva del Fresno.

A família tem conhecimento ao jantar, o velho pai de Diego Falé não concorda e diz alto: As mulheres aceitam onde o marido quer viver.  Diego Falé acena com a cabeça dando razão ao pai.

Marilu deixou a sua primavera raiana à beira do Alqueva para se tornar uma submissa, nasceu para cumprir um código de honra numa tradição que se afirma milenar e Diego Falé tem duvidas do seu futuro.

terça-feira, 10 de março de 2015

O Neto





O dia amanheceu soalheiro, o sol não muito quente prometia um dia agradável para a boda desejada e marcada para este dia. Lucas e Anita apaixonaram-se, viveram um namoro cheio de momentos inolvidáveis, amam-se, e hoje, até o sol se faz convidado.

Lucas tem a experiência de outra relação que lhe deu um filho e não lhe deu mais nada.

Lado a lado concretizam o casamento com pompa e circunstancia, trocam alianças e nos convidados a alegria é imensa, algumas lágrimas caem nos familiares mais próximos.

Olhando-se, beijam-se e todos rejubilam, alguns batem palmas com gritos de parabéns, estão felizes, o sol acompanha-os para a boda à mesa.

As histórias começam sempre assim.

A meio da tarde jorra alegria, musica e champanhe para partir o bolo da noiva sem que os bonequinhos noivos sejam derrubados do terceiro anel, de fatia em fatia o bolo lá vai sendo distribuído com beijinhos à mistura.

Entre os desejos da praxe, “vocês vão ser tão felizes” um empregado de mesa informa Lucas de que tem uma chamada telefónica, Anita nem se apercebe de que Lucas vai ao telefone que quando atende:
Sim sou o Lucas estou a falar com quem?.
Com a tua ex é para vires buscar o teu filho que eu estou de saída para o estrangeiro.   
Agora! No dia do meu casamento, não me tinhas dito nada.
Pois eu sei mas as coisas são assim e isso não me interessa nada vem buscar o teu filho e rápido, não te demores. Desligou o telefone.

Lucas ficou a olhar as paredes e elas eram brancas, ainda tinha o telefone na mão quando surgiu Anita:
Olha caiu-me bolo no vestido!, o que é que tu tens?, estás a tremer.
Nem eu sei o que acabou de me acontecer, a minha ex ligou-me para eu ir buscar o meu filho, e já, que ela está de saída para fora do país, está a fazer de propósito e a usar o meu filho para me estragar o dia.
Só que não estragou, vai buscar o menino enquanto eu falo com os meus pais.

Alguns dos convidados aperceberam-se de que algo acontecia, Lucas saiu da festa e foi buscar o filho que se tornou em mais um neto para os pais de Anita.



sábado, 28 de fevereiro de 2015

A Sala das vidraças grandes

Passaram trinta anos. Juliana e Araújo trabalharam durante quinze na mesma sala de arquitectura frente a frente, uma sala pequena com vidraças grandes onde só os cavaletes os separavam.

Nos últimos tempos desses quinze anos, os dois, deixaram-se envolver pelas muitas horas de olhares e conversa de desejos intermitentes, passavam mais horas juntos que com os seus conjugues, pensaram que se amavam.
Havia toques e pequenos beijos nos lábios, as mãos dele pareceram-lhe a ela sempre muito macias, até ao dia em que a oportunidade de ficarem completamente a sós lhes mostrou que outro caminho deveria ser percorrido.

As histórias começam sempre assim.

No dia seguinte assim que Juliana entrou na sala ele abrasou-a por trás, acariciou-a destemidamente, ela avisou-o que podia ser perigoso e beijou-o.

Uma segunda oportunidade de estarem a sós surgiu, entraram no quarto do hotel e sentaram-se na borda cama, ele colocou uma das mãos sobre a perna dela, olharam-se, sorriram e decidiram sair dali.

Estás aborrecido?, não!. Tempos depois Juliana mudou para uma das salas do terceiro andar do edificio e Araújo passou a fazer serviços no exterior. Deixaram de se encontrar de se ver, sobrava as festas de natal onde nem se quer se sentavam juntos.

Volvidos outros quinze anos Araújo volta a ser colocado na sala das vidraças grandes, chegou cedo, vai preparando o seu portátil e não repara que quem lhe diz bom dia é Juliana.

domingo, 11 de janeiro de 2015

O Questionário



Fazem sete anos de relacionamento. Maurício está com quarenta e oito anos e Graciela é dois anos mais nova.

Depois de falhanços matrimoniais que lhes deram filhos, ambos, se dedicaram à vida e essa lhes arranjou o encontro para não mais se largarem e procurarem ser felizes.

Maurício que participava numa festa da empresa onde exerce funções de administrativo encontrou-a no balcão de recepcionistas do hotel, a dificuldade no uso do cartão de credito levou Maurício a meter conversa no sentido de ajudar e conseguiu.

Resolvida essa questão, Maurício deixou os colegas e os brindes e convidou Graciela para uma bebida no bar, cerca de uma hora depois trocaram números de telemóvel e mail com promessas de que se voltariam a encontrar.

As histórias começam sempre assim.

Assumiram algum tempo depois uma relação independente, cada um em sua casa, com encontros praticamente diários em que um fazia parte da vida do outro.

Hoje, para festejar os sete anos de amizade, amor e autonomia escolheram o restaurante do hotel onde se conheceram, Graciela sorri e diz-lhe que é feliz: Tenho sido feliz ao teu lado se calhar é por nunca me falares em casamento.

Maurício enquanto ajeita os talheres: Tu tens sido uma mulher fantástica, agradeço-te a tua disponibilidade a paciência, amo-te muito, sempre te demonstrei o meu carinho e quero ficar contigo, mas, nesta ultima conversa que tivemos na mata do Buçaco acho que não podes exigir que eu não te questione quando entendo fazer.

Não é isso coração!, adianta Graciela surpreendida, ás vezes o teu comportamento e as  perguntas que me fazes deixam-me sem paciência para aturar as tuas apreciações.

Maurício coloca vinho no copo de Graciela e no seu também, é vinho tinto “Cavalo Maluco”, vá-lá vamos brindar a nós.

Deram pequenos goles e enquanto colocavam os copos sobre a mesa redonda Maurício segurando na mão de Graciela continua:

Tu recordas a cena do contrato com a empresa de distribuição de canais de televisão?, outra vez!, nós já debatemos isso quantas vezes, estás a estragar a noite.

Maurício insiste: Não é essa a intenção, é que eu nunca digo tudo de uma só vez, deixa que te questione, eu liguei para tua casa três vezes durante essa tarde, o telefone deu sempre inacessível e eu liguei para o telemóvel e falámos, tu estavas em tua casa?.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Açores

No consultório que ocupa vai para dois meses numa das aldeias entroncadas entre ravinas com vista para o mar dos Açores, ele, recebe no portátil a mensagem desejada, ela vem visita-lo.

São ambos divorciados de compromissos de mais de vinte anos, ele é médico e colocado em São Miguel e ela professora numa escola primária no norte.

No dia certo a ansiedade faz com que ande de um lado para o outro em pleno aeroporto de Ponta Delgada, por fim, ela surge na porta que ele nunca deixou de olhar até cansar a vista.

Abraços e beijos de carinho e saudade, ele segura a mala e encaminham-se para o automóvel, uma viagem de uma hora espera-os, ele quer parar no Pópulo para jantar.

Assim aconteceu, já no leite-creme, ele questiona: Vi que vinhas acompanhada e na conversa!, sim, olha foi a minha companhia na viagem, por acaso muito simpático é de Mourão chama-se Luis Carlos, é engenheiro electrotécnico.

Regressam ao automóvel, a noite está chuvosa, depois de passar as Furnas a estrada que é sinuosa em direcção à Povoação fá-los ir devagar numa conversa de perguntas e respostas sobre dois meses de separação.

As histórias começam sempre assim.

A semana de férias vai passando dia a dia, ela esta encantada com a naturalidade da ilha, é véspera do regresso ao continente e ele combinou para o almoço um cozido nas Furnas.

Saciados, dão uma volta no jardim e visitam a capela, à saída o telemóvel dela dá indicação de mensagem: Espera é o Luis Carlos. Surpreso ele mostra-se inquieto e atira: O que é que ele quer. Diz, que o tempo não deixou fazer o que pretendia e manda cumprimentos e até amanha.

Enquanto ela responde à mensagem e sem lhe perguntar o que lhe  respondeu, pergunta-lhe: Deste-lhe o teu numero de telemovel?, então, vocês regressam amanha no mesmo voo?. Sim.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A Resposta



Chegou à moradia entrou e descalçou-se, depois de arrumar as botas para o frio que se faz sentir na rua tratou de fazer café, um expresso, e sentou-se na velha cadeira coberta por uma manta que a mãe lá coloca.

A idade vai colhendo a sua graciosidade, os movimentos, o cabelo branco, agora cansa-se com mais frequência basta subir uns degraus. 

Sentado, vai olhando pela vidraça a mata de cor acastanhada pelo Outono chuvoso e as lembranças jorram em cada folha que cai.

A vida foi-lhe simpática, extravasou os sonhos de rapaz, foi amado e viveu esses romances como se fossem os últimos, agora tem a companhia da mãe e o vazio que vai olhando pelos intervalos das árvores que se abanam ao vento.

Os pensamentos toldam-lhe a alma, deixa sair um sorriso aconchegando-se na velha cadeira enquanto procura sobre a pequena mesa o livro que começou a ler recentemente, “Deus Dorme Em Masúria”.

A história do livro baseia-se na vida de uma família alemã na época antes da segunda grande guerra, ao ler sobre as férias levantou o olhar, recordou a sua praia e a mulher a quem nunca disse que era o seu grande amor.

As histórias começam sempre assim.

Levantou-se, dirigiu-se ao computador e enviou uma mensagem:

“No sábado de tarde, como sempre, fui fazer o meu passeio a São Pedro de Moel e não me saíste da cabeça, tive esperança de te ver lá em baixo na pracinha e mesmo a começar a chover “obriguei” a minha mãe e a minha filha a fazer a volta por lá, subindo depois como quem vai para o farol…mas…não tavas.”

Morreu sem nunca receber a resposta.